Crônicas Além do Absurdo: Vai tudo virar crente?(Baseado no texto “Deus nos livre de um Brasil evangélico de Ricardo Gondim)

Este post vai ao ar com uns dois meses de atraso. A explicação: Eu estava em um sítio, localizado em Juatuba, quando ouvi uma música que tinha este nome: “Vai tudo virar crente”, se não me engano, quem canta esta pérola do cancioneiro gospel nacional é Ludimila Ferber.

Rumino esta canção desde então, porém, me lembrei de um texto escrito pelo jornalista Ricardo Gondim, o que me deu coragem para escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil  se tornar evangélico. A mensagem subliminar da música, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a nossa pátria amada se transformar num país legitimamente evangélico.

O sonho que é afirmado, tanto no artigo do Ricardo, quanto aqui, é que impere o movimento evangélico, mas, na verdade, a gente se refere a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E para eles, não importa que haja um avanço gigantesco entre católicos ou ortodoxos. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil deve virar "crente", com a cara deles, os evangélicos. (acabamos de bater três vezes na madeira).

Não é preciso imaginar uma Genebra brasileira para ficar com o medo de ver o nosso país virar “crente”. Há uma turma que, como o Ricardo diz, anseia por um “puritanismo moreno”, porém nos perguntamos: como é que essa turma iria tratar grandes nomes da nossa MPB, como Ney Matogrosso, Gal Costa, Caetano Veloso, entre outros, e os novos nomes, caso de Maria Gadú, Maria Rita, Roberta Sá, como ficam?

Qual seria o destino de grandes sucessos como “Carinhoso”, do Pixinguinha? É melhor nem falar.

Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? Existem algumas músicas compostas pelos evangélicos que eu gosto de ouvir, algumas até caíram no gosto popular, como “Faz um milagre em mim”, do Régis Danese, outras foram regravadas por astros da música católica, como por exemplo: “Segura na mão de Deus”, antes composta por R.R Soares, depois, um hit na voz do padre Marcelo Rossi e, “Restitui”, composta e gravada pela banda Toque no Altar(se não me engano) e regravada pelo padre Hewaldo Trevisan.

O Ricardo perguntou se as rádios iriam tocar sem parar músicas evangélicas, então, eu respondo, se fomos olhar o avanço das emissoras evangélicas no dial, este pesadelo pode virar uma triste realidade (aliás já é uma triste realidade, pois existem, segundo o Tudo Rádio, as seguintes redes evangélicas: Rede Aleluia, da Igreja Universal,  com (pasmem!) mais de 70 emissoras, Nossa Rádio, da Igreja da Graça com 14 emissoras, Deus é Amor (ou A Voz da Libertação), da Igreja de mesmo nome, com 29 emissoras, Novo Tempo, Adventista, com 19 emissoras, Melodia, no RIo de Janeiro (97.5); em Maceió (90.1) e na região de Catanduva (102.7), Sara Brasil, da Sara Nossa Terra com 8 emissoras: Brasília (99.7); Goiânia (93.9); Curitiba (107.5); Porto Alegre (95.5);  Florianópolis (89.1); Angra dos Reis (105.9); Aracajú (97.1) e São Paulo (101.3), além das novatas: Sê Tu Uma Bênção, da Mundial, em São Paulo (98.1); São José do Rio Preto (102.5); Santos (102.1); Belo Horizonte (90.1) e Curitiba (92.9), e Vida, da Paz e Vida, já com 4 emissoras: São Paulo (96.5), Maceió (99.1), João Pessoa(101.1), que estreou na semana passada, e Porto Alegre (105.9), além das incontáveis emissoras pertencentes à Igreja do Evangelho Quandrangular, a Asembléia de Deus, e por aí afora, tanto em AM e FM, e o nosso pavor vai aumentar, pois vem aí a rede AD Brasil, da Assembléia de Deus, e mais expansões, nos casos das redes Deus é Amor, Nossa Rádio, Sê Tu uma Bênção, Vida, Rede Aleluia e, quem sabe, Sara Brasil e Novo Tempo).

Se o nosso país virar, realmente, evangélico, teremos um cerco à boemia, pois, já ouvi que o pessoal da Igreja Batista da Lagoinha sempre vai nas Praças da cidade, nas noites de sábado, converter quem está lá, e vai abrir uma casa de apoio na Guaicurus. Podemos perder todo o acervo de Vinícius de Moraes, aí, pergunto também: Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como sabemos, os metodistas já investem em educação, então, já podemos ter um esboço da educação universitária evangélica neste país:

Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Com o Brasil evangélico, o folclore cairia por terra: não teremos mais o bumba-meu-boi, o carnaval, as festas juninas, as procissões de fé, os dias dedicados aos santos, e etc. Todos os ritmos músicais seriam dedicados exclusivamente à “adoração”: frevo, samba, sertanejo, rock, pop, enfim… as comidas típicas não existiriam mais, não teríamos o costume de ir à praia, e etc… Com um Brasil dominado pelos crentes, não teríamos tempo, nem para o futebol, vejam só!

Um Brasil evangélico significaria a vitória do fisiologismo político; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências pertencentes à Bancada dos Fiscais do Fiofó Alheio(bancada evangélica)  nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte, então, se o país virar evangélico, seria a vitória do chamado “american way of life”. 

Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica(que segundo o professor Felipe Aquino, é a verdadeira Igreja, pois foi fundada por Jesus Cristo) e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Os membros da Universal (ou Deus é Amor) , ou alguns da Igreja da Graça, ou de qualquer outra igreja evangélica, sempre criticam a Rede Globo, mas aí penso como devem ser as emissoras lideradas por eles(Record, Rede Família, Record News, Rit, Rede Super, Rede 21, TV IMPD): insípidas, bregas, chatas, horrorosas, irritantes.

Então, só posso dizer o seguinte: música evangélica, pra mim, entrou na lista dos excessos, livros, podem ser qualquer um, mas de vez em quando, algum evangélico, mas, prefiro um romance de Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade, ou seja, viver a sua vida normalmente; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Além dos 140 Caracteres: a rede de blogs que vai Além para quem quer ir mais Além.

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: